Fonte: http://www.jornalopcao.com.br/imprime.asp?secao=Destaques2&idjornal=122&idrep=
Enquanto defendem a auto-estima dos alunos marginais, autoridades pedagógicas rendem-se ao Ministério Público — que vilipendia a dignidade do professor
JOSÉ MARIA E SILVA
Por ser formado de matéria e espírito, o ser humano é um complexo amálgama de natureza e cultura, genética e história, vontade pessoal e consciência coletiva. O indivíduo não é produto do meio, mas também não nasce pronto. As instituições sociais ajudam a formá-lo: em tempos imemoriais, a religião e o clã; nos tempos modernos, a família e a escola. A cultura inscreve-se no DNA de cada um e escreve-se com eles. Saber exatamente onde, em cada pessoa, termina o indivíduo e começa a sociedade é um daqueles problemas que poderiam suscitar a perplexidade de Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. Mas uma coisa é certa: sem o ser social que o habita, o indivíduo seria pouco mais do que um bicho. Desde a Paidéia grega, a educação tem sido forja de civilizações, transformando a natureza bruta que é o homem e seus instintos na cultura humana que é a pessoa e suas relações sociais.
Como observa o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), a educação é “a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social”. Ele observa que a educação “tem por objeto suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança particularmente se destine”. Infelizmente, esse conceito de Durkheim já não serve para descrever a realidade das escolas brasileiras. Nelas, o princípio milenar da educação se inverteu, e o jovem é que impõe seus instintos à experiência dos adultos. A escola já não contribui para formar no indivíduo o “ser social” de que falava o sociólogo francês — ela tornou-se escoadouro público dos mais lesivos instintos anti-sociais do indivíduo. Prova disso é o crescente fenômeno da violência nas escolas, que afeta professores e alunos.
Obviamente, são múltiplos os fatores que fazem eclodir a violência nas escolas. Todavia, dizer que a escola apenas reflete a violência presente na sociedade (como repetem as autoridades pedagógicas) é subverter a possível realidade do fenômeno. Talvez seja mais correto afirmar que a escola é que fez eclodir a violência na sociedade e não o contrário. Foi a partir da escola que os valores morais que sustentavam a sociedade foram destruídos. A partir do Maio de 68 (promovido por estudantes), a fantasia corrompeu o conhecimento, o prazer sobrepujou o dever e, em conseqüência, o egoísmo se impôs à solidariedade. Papagaios de academia repetem que vivemos na sociedade do conhecimento, mas, na prática, vivemos na sociedade dos hormônios e não dos neurônios — a experiência das gerações adultas tem sido preterida pelos instintos da juventude.
Essa inversão de valores tem seu epicentro na escola. Na família, a palavra final ainda é dos pais. Nas igrejas, é dos padres e pastores. Mas nas escolas o carro anda adiante dos bois — o aluno é quem manda. Toda a pedagogia brasileira atual alicerça-se na idéia de que o professor é um serviçal da vontade do aluno. A pedagogia dos ciclos de formação — que se tornaram polêmicos em Goiânia — é o corolário dessa tendência. Daí casos estarrecedores como o que foi descrito pelo professor e escritor Ademir Luiz, na edição passada do Jornal Opção. No artigo “O professor não é obrigado a ser mártir”, ele conta o caso de um menor que, depois de concluir a 8ª série, não se adaptou ao 2º grau, por não saber ler nem escrever, e voltou à sua antiga escola para perturbar professores e ex-colegas. Acompanhado de uma gangue, pulava o muro da escola, “agredia uns, beijava outras, xingava, batia boca com professores e coisas do gênero”. Por fim, esses alunos e seus comparsas arrombaram armários, defecaram numa sala de aula, destruíram a horta da escola e abriram uma cova rasa, jurando de morte uma professora.
Se, no Brasil, a escola ainda tivesse a dignidade de um prostíbulo, o artigo do professor Ademir Luiz da Silva seria motivo de investigação por parte das autoridades constituídas. Até uma cafetina, se souber que uma de suas pupilas está sendo ameaçada de morte por um cliente, leva o fato à polícia. Um aluno ameaçar de morte sua professora é algo equivalente ao matricídio. E esse fato gravíssimo, longe de ser exceção, é quase regra nas escolas públicas — professores são constantemente ameaçados por alunos, mas nada acontece. Muito do que hoje se caracteriza como indisciplina ou violência nas escolas é, na verdade, crime, que só não leva esse nome porque o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleceu que, abaixo dos 18 anos, todos os demônios são anjos. O menor pode fazer o que quiser na escola que não sofrerá nenhuma punição. E, se um diretor ousar puni-lo, terá contra si o Ministério Público e o Juizado da Infância e da Juventude, que não demonstram o menor respeito pelos professores da escola pública.
A violência praticada por alunos marginais é o verdadeiro problema da educação brasileira e, enquanto esse grave problema não for resolvido, nenhuma política educacional surtirá efeito no país. As secretárias de Educação sabem disso, mas preferem agir como o Pangloss de Voltaire, fazendo de conta que a escola é o melhor dos mundos possíveis. Por mais que repitam que a educação é fundamental, os governantes continuam achando que escola é assunto de mulheres — uma vez inaugurada a sala de aula, que elas se virem com o processo pedagógico. E as secretárias de Educação de todo o país nada fazem para mudar esse quadro. Vivem falando em “cidadão crítico”, mas comportam-se como aquelas donas de casa do passado, que, quando o marido retornava cansado do trabalho, cuidavam para que as crianças não fizessem barulho. O marido não era pai, para cuidar de problemas de menino, era só o provedor, responsável por manter a casa.
A exemplo dessas donas de casas antigas, as secretárias de Educação vêem o prefeito ou o governador apenas como provedores da educação. Se tem um aluno querendo matar uma professora, que a diretora da própria escola se vire. Imagine perturbar o prefeito ou o governador por causa de uma bobagem dessas? Eles têm coisas mais importantes para tratar, assuntos de homem, como fazer asfalto ou negociar alianças. Apesar de trazerem, na ponta da língua, palavras e expressões como “cidadania”, “auto-estima” e “consciência crítica” (sempre que querem criticar os professores), essas secretárias não passam de Amélias da Educação. Eliana França não perturba Marconi Perillo por conta da violência nas escolas. Assim como Valderez Loureiro não perturbava Pedro Wilson em função da polêmica gerada pelos ciclos. E Márcia Carvalho parece que não tem a menor intenção de desviar Iris Rezende de sua missão civilizatória de asfaltar o mundo para se ocupar de um problema tão secundário como a anarquia das escolas municipais.
Logo no início do ano letivo, a secretária municipal de Educação, Márcia Carvalho, mostrou que, na educação pública, “auto-estima” é apenas um conceito de papel. A princípio, ela havia decidido que, o ano letivo de 2005, seria um ano de debate sobre o sistema de ciclos. Sua manutenção ou extinção seria implementada só no ano que vem, depois do necessário debate com os professores e a sociedade. Qualquer pessoa que conhece o sistema de ciclos sabe que ele não funciona, mas a prudência de Márcia Carvalho mostrou-se correta. Um sistema de ensino é sempre muito complexo e não deve passar por mudanças intempestivas, sobretudo num momento em que a troca do método pedagógico coincidiria com a substituição de parte da equipe de profissionais da pasta. Entretanto, depois de ter tomado sua decisão, a secretária Márcia Carvalho voltou atrás e decidiu restaurar as provas e a reprovação na rede municipal de ensino — por recomendação do Ministério Público. Ou seja, quase todos os professores da rede municipal de ensino, muitos deles com larga experiência pedagógica, sempre tiveram reclamações a fazer sobre os ciclos, mas nunca foram ouvidos. Eram tratados como meninos resmungões. Mas bastou um promotor qualquer se arvorar a educador, para a secretária render-se a seus conselhos pedagógicos.
Desde quando o Ministério Público tem competência para determinar como deve ser o método de avaliação nas escolas? Por acaso o médico Luciano Sardinha aceitaria o Ministério Público dar palpite sobre o diagnóstico de pacientes no Hugo? Onde está a “consciência crítica” e a “auto-estima” da secretária municipal de Educação que aceita ser mandada por promotores imberbes numa área que não é da competência deles? Senhoras secretárias, isso é desmoralizar a própria imagem do professor. E não há sistema de ensino que funcione sem o devido respeito à figura do professor. A escola pública está tão desmoralizada que já tivemos promotores movendo ação judicial para proibir o uso de uniforme pelos alunos e revogar horário nas escolas. Engraçado é que esse mesmo Ministério Público que se arvora a fazer o papel de Conselho de Educação foi negligente na questão do promíscua pesquisa imposta aos professores da rede pública estadual de ensino. O Ministério Público não quis entrar no mérito do questionário da pesquisa, quando era sua obrigação fazê-lo, porque, através de muitas perguntas, a autoridade pública feria os direitos humanos, violando a intimidade dos professores. Ou os promotores públicos acharam que só bandidos — incluindo alunos violentos — têm direitos humanos?
Deve ser isso o que pensam, mas não só eles. Na verdade, o Ministério Público que emergiu da Constituição de 1988 já é filho da doutrinação marxista que permeia toda a sociedade brasileira. Como já não dispõe de proletários para encabrestar, o marxismo infiltrou-se nas instituições e a escola é o seu celeiro preferido. Criou-se até uma “pedagogia do conflito”, voltada para a fabricação de pequenos revolucionários já no ensino fundamental. Na prática, essa pedagogia — inspirada em Paulo Freire — não cria revolucionários, mas embriões de futuros criminosos. Nas Secretarias de Educação e em todas as Faculdades de Pedagogia do país impera a idéia de que o aluno indisciplinado e violento não é o algoz de seus colegas e professores, mas uma vítima da sociedade e da própria escola. Praticamente toda a literatura pedagógica adotada nas faculdades do país corrobora essa tese, que acabou sendo encampada pelo próprio MEC, com a Campanha Paz nas Escolas. Ao eximir-se de identificar os alunos violentos, que são minoria, as autoridades pedagógicas legitimam a própria criminalidade.
É o caso de Júlio Groppa Aquino, doutor em psicologia escolar pela USP e pós-doutor pela Universidade de Barcelona, na Espanha. Professor titular da USP, com artigos publicados em importantes revistas de educação do país, Groppa Aquino é considerado uma autoridade científica sobre violência e indisciplina nas escolas. Mas a exemplo da produção acadêmica de seus pares, a sua é também um manifesto em defesa dos alunos marginais, como se percebe no livro Do Cotidiano Escolar: Ensaios sobre Ética e Seus Avessos (Summus Editorial, 2000). Nessa obra, Júlio Groppa Aquino sustenta: “Grande parte dos problemas relativos à depredação e deterioração das instalações escolares (invasões, roubos, furtos, pichações, destruições de bens etc.) ocorre, possivelmente, como resposta ao auto-enclausuramento escolar (muros cada vez mais altos, janelas gradeadas, portões indevassáveis etc.) ou como contestação à organização das práticas dominantes e, por extensão, às relações que ali se forjam”.
Ou seja, quando uma gangue suja de fezes uma sala de aula, arromba armários da escola e ameaça de morte uma professora, como descreveu Ademir Luiz, ela está apenas sendo revolucionária, respondendo “criticamente” ao “autoritarismo” da escola. Na prática, é essa a conseqüência do discurso supostamente progressista dos pedagogos de gabinete, como Júlio Groppa Aquino, que parecem habitar outro planeta, tal é o alheamento que demonstram em relação à realidade das escolas brasileiras, especialmente a escola pública. Não é à toa que a pedagogia “anda em baixa em setores intelectuais e profissionais do meio educacional, que assumem, freqüentemente, uma atitude irônica ante o seu conteúdo e o próprio processo que ela representa”, como reconhece um aclamado pedagogo brasileiro, o professor José Carlos Libâneo, no livro Pedagogia e Pedagogos, Para Quê? (Cortez Editora, 1998), já na quinta edição.
Doutor em filosofia e história da educação pela PUC de São Paulo, José Carlos Libâneo acusa o Estado capitalista de ser o responsável pela desvalorização do professor, quando, na verdade, a própria pedagogia é a principal culpada pelo completo desprestígio a que o magistério chegou. O que seria dos médicos se a própria medicina, sem seus textos teóricos, pregasse a automedicação por parte dos pacientes? Pois é o que tem feito a pedagogia brasileira desde a década de 60, quando o pedagogo Paulo Freire iniciou o processo de destruição da figura do professor, igualando-o ao aluno no processo de aprendizagem. Seu livro Pedagogia do Oprimido, apesar de ter feito carreira internacional, não passa de um manual de auto-ajuda marxista — como de resto toda a pedagogia brasileira, que se limita a parafrasear o Manifesto Comunista de Marx e Engels.
Mera doutrinação marxista travestida de ciência, a pedagogia brasileira, em seu afã de igualdade, procura negar, sistematicamente, todas as diferenças entre os indivíduos, a começar pela necessária hierarquia que deve haver entre professor e aluno. Não é à toa que José Carlos Libâneo afirma: “Se quisermos enfrentar as exigências do pós-industrialismo aliadas à formação do cidadão-crítico — formação geral e técnica ampla, pensamento abstrato e abrangente, flexibilidade intelectual, capacidade de responder criativamente a situações novas etc. —, é preciso que os professores sejam preparados nos mesmos requisitos propostos aos alunos”. Num ato falho, Libâneo mostra toda a carga de preconceito da pedagogia acadêmica contra o professor da escola básica — ele põe o carro adiante dos bois e defende que a formação do mestre seja norteada pela formação dos discípulos e não o contrário.
A “pedagogia crítica” que José Carlos Libâneo defende é, ao mesmo tempo, um pecado moral e um pecado epistemológico, porque, além de ser uma completa subversão de valores, é também uma patente impossibilidade lógica: como é que a pedagogia acadêmica pode formar o professor da escola básica de acordo com os “requisitos propostos aos alunos” se, para propor qualquer requisito para esses alunos, ela precisa antes propô-los ao próprio professor que está formando na universidade? Não adianta Libâneo defender uma “pedagogia crítica” para o aluno da escola básica se o futuro encarregado desse conhecimento não é formado criticamente nas universidades. Alguém pode alegar que é exatamente isso o que Libâneo propõe: que os alunos das licenciaturas sejam formados na “pedagogia crítica” para, depois, aplicá-la na escola básica quando se tornarem professores. Ora, uma pedagogia só é verdadeiramente crítica se ela for capaz de formar educadores capazes de negá-la. Caso contrário, não estará educando criticamente, mas doutrinando dogmaticamente.
Na verdade, essa pedagogia dita progressista não está preocupada em formar bons professores para a escola básica — quer apenas instalar correias de transmissão da ideologia marxista. Praticamente todos os teóricos da educação brasileira são de esquerda e procuram inculcar nos professores da escola básica a necessidade de superação do capitalismo. Visceralmente dividido entre a utopia e a realidade, o professor, mesmo o inteligente e dedicado, acaba tendo dificuldade para ser um bom profissional. Pagos para ensinar as crianças a viverem no mundo capitalista, não sabem como fazê-lo, porque foram treinados para destruí-lo. Daí o descontentamento generalizado dos professores com o magistério. Infelizmente, é esse o legado das Faculdades de Pedagogia para o Brasil — teóricos da educação como Júlio Groppa Aquino e José Carlos Libâneo falam em alunos-cidadãos, mas formam professores-zumbis.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
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